RESUMO
Este ensaio teórico tem como objetivo refletir sobre tres modelos de interpretaçâo de textos utilizados na pesquisa qualitativa, muitas vezes, confundidos em seus conceitos e suas metodologías: Análise de Conteúdo, Análise do Discurso e Análise de Conversaçâo. Após a apresentaçâo dos seus conceitos, propoe-se discutir, preliminarmente, acerca das diferenças teórico-metodológicas perceptíveis entre eles. Foi realizada uma pesquisa bibliográfica para subsidiar a discussâo conceitual e teórico-metodológica. Verificou-se que os modelos revelam diferenças relacionadas ao tipo de estratégia utilizada no tratamento dos textos, ao tipo de abordagem e à postura teórica em que se enquadram.
Palavras-chave: Pesquisa qualitativa; Modelos de interpretaçâo de textos; Análise de conteúdo; Análise do discurso; Análise de conversaçâo.
ABSTRACT
This theoretical essay aims to reflect on three models of text interpretation used in qualitative research, which is often confused in its concepts and methodologies (Content Analysis, Discourse Analysis, and Conversation Analysis). After the presentation of the concepts, the essay proposes a preliminary discussion on conceptual and theoretical methodological differences perceived between them. A review of the literature was performed to support the conceptual and theoretical methodological discussion. It could be verified that the models have differences related to the type of strategy used in the treatment of texts, the type of approach, and the appropriate theoretical position.
Keywords: Qualitative Research; Models of Interpretation of Texts; Content Analysis; Discourse Analysis; Conversation Analysis.
INTRODUÇÂO
A interpretaçâo de textos na pesquisa qualitativa, enquanto etapa posterior à coleta de dados, tem como funçâo tanto o desenvolvimento da teoría como o embasamento para a coleta de dados adicionais e decisâo de quais casos devem ser selecionados (flick, 2009). A interpretaçâo de textos se propôe a buscar dois objetivos opostos: revelar e expor enunciados ou contextualizá-los no texto, assim, levando a um aumento do material textual; ou a reduzir o texto original por meio de paráfrase, resumo ou de categorizaçâo.
Conforme Flick (2009), podem-se distinguir duas estratégias de como trabalhar com textos: a codificaçâo de material, que tem o objetivo de categorizar ou desenvolver a teoria; e a análise sequencial do texto, que busca a reconstruçâo da estrutura do texto e do caso. Na primeira estratégia, encontram-se procedimentos como a codificaçâo teórica, a codificaçâo temática, a análise qualitativa do conteúdo e a análise global; enquanto que, na segunda, constam a análise de conversaçâo, a análise do discurso, a análise de género, a análise narrativa e a hermenéutica.
Sabe-se que há uma proliferaçâo de termos para descrever as várias possibilidades de se extrair o significado de comunicaçôes contidas em um texto, ou em qualquer outra forma de comunicaçâo (cmzzoTTi, 2010). Nesse sentido, a análise de conteúdo, a análise do discurso e a análise de conversaçâo constituem modalidades de interpretaçâo de textos, que, segundo Chizzotti (2010), apoiam-se em diferentes orientaçôes filosóficas e propôem formas de análise fundamentadas nas diversas teorias linguísticas, na semiótica, na hermenéutica, no estruturalismo, no pós-estruturalismo e no interacionismo, a fim de se extrair significados expressos ou latentes de um texto.
Assim, este ensaio teórico tem como objetivo fazer uma reflexâo especificamente sobre trés modelos de interpretaçâo de textos, ou estratégias de análise de dados, utilizados na pesquisa qualitativa, que, muitas vezes, sâo confundidos em seus conceitos e metodologias, quais sejam: Análise de Conteúdo, Análise do Discurso e Análise de Conversaçao. Após a apresentaçao sumarizada dos conceitos teórico-metodológicos de cada um dos modelos, o estudo se propöe a discutir preliminarmente algumas das diferenças perceptíveis entre eles à luz dos achados na literatura especializada. Parte-se, inicialmente, de uma diferenciaçao geral entre os très modelos, e, na sequência, é desenvolvida uma diferenciaçao aos pares: Análise de Conteúdo versus Análise do Discurso; Análise de Conteúdo versus Análise de Conversaçao; e Análise do Discurso versus Análise de Conversaçao. Para tanto, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, recorrendo a livros e artigos científicos, com o intuito de identificar aspectos relevantes para a discussao conceitual e teórico-metodológica.
A importância deste estudo reside no fato de que o quantitativo de pesquisas que utilizam esses modelos de interpretaçao de textos, de natureza qualitativa, tem-se elevado (dellagnelo; silva, 2005), principalmente, no campo da produçao científica em Administraçao. Shah e Corley (2006) destacam a importância e a validade da pesquisa de abordagem qualitativa, assim, demonstrando que acreditam no seu crescimento e na sua aceitaçao em virtude da sua consistência cada vez mais evidente e do rigor científico das técnicas utilizadas. Mozzato e Grzybovski (2011) afirmam que esses modelos de análise de dados sao os mais utilizados em estudos organizacionais de abordagem predominantemente qualitativa.
É importante salientar que há uma lacuna no que se refere a trabalhos que tenham como objetivo diferenciar conceitual e metodologicamente os modelos de interpretaçao de textos, tal como se propöe neste estudo. Para Mozzato e Grzybovski (2011), o conhecimento desses modelos torna-se indispensável para que o pesquisador tenha condiçôes de realizar a escolha mais adequada ao que se propöe estudar, desse modo, visando ao avanço na temática e, consequentemente, no campo de estudo, isto é, o conhecimento das diferentes técnicas de análise de dados torna-se pertinente para que as escolhas possam ser realizadas de maneira mais apropriada, tanto para a temática em estudo como para os propósitos do pesquisador e, também, para o campo de pesquisa.
MODELOS DE INTERPRETAÇÂO DE TEXTOS
Análise de Conteúdo
No início do século xx, durante 40 anos, a Análise de Conteúdo se desenvolveu nos Estados Unidos. Nesse período, o material analisado era essencialmente jornalístico, estendendo-se ao discurso publicitário e literário, ampliando-se para o conteúdo político ou militar das mensagens (caregnato; mütti, 2006; Fonseca júnior, 2009; CHizzoTTi, 2oio; bardin, 2oii). O grande impulso recebido pela Análise de Conteúdo ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando 25% das pesquisas com essa técnica estiveram a serviço do governo americano, projetada com o objetivo de desmascarar periódicos e agências de noticias suspeitos de propaganda subversiva, bem como para monitorar as transmissöes radiofónicas internas dos nazistas e seus aliados (kRIPPENDORFF, 1990; FONSECA JÚNIOR, 2009; BARDIN, 201l).
Conceitualmente, a Análise de Conteúdo refere-se a uma técnica das ciências humanas e sociais destinada à investigaçao de fenómenos simbólicos por meio de várias técnicas de pesquisa, ocupando-se basicamente com a análise de mensagens. Na ciência, "é tributária do Positivismo, corrente de pensamento desenvolvida por Augusto Comte, cuja principal característica é a valorizaçao das ciências exatas como paradigma de cientificidade e como referência do espirito humano em seu estágio mais elevado" (fonseca júnior, 2009, p. 281).
Conforme Fonseca Júnior (2009, p. 281), a postura Positivista se encontra presente nas várias definiçôes de Análise de Conteúdo, entre elas, a clássica definiçao de Bernard Berelson (1952, p. 18), que a designa como "uma técnica de investigaçao que, através de uma descriçao objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicaçôes, tem por finalidade a interpretaçao destas mesmas comunicaçôes".
Assim, corroborando essa definiçao clássica, Rocha e Deusdará (2005) afirmam que a Análise de Conteúdo pode ser definida como um conjunto de técnicas de análise das comunicaçôes que aposta no rigor do método como forma de nao se perder na heterogeneidade de seu objeto, trata-se da sistematizaçao e da tentativa de conferir maior objetividade a uma atitude que conta com exemplos dispersos, mas variados, de pesquisa com textos. Os autores comentam que, neste movimento entre a heterogeneidade do objeto e do rigor metodológico, percebe-se em que modelo de ciência se funda a Análise de Conteúdo: um modelo duro, rígido, de corte positivista e centrado na crença de que a neutralidade do método seria a garantía de obtençao de resultados mais precisos. Essa neutralidade consiste em uma relaçao de distanciamento entre o pesquisador e seu objeto de análise, mediada por uma abordagem metodológica adequada.
De acordo com Chizzotti (2010, p. 114), "a Análise de Conteúdo é uma dentre as diferentes formas de interpretar o conteúdo de um texto que se desenvolveu, adotando normas sistemáticas de extrair os significados temáticos ou os significantes lexicais, por meio dos elementos mais simples de um texto". Para o autor, consiste, ainda, em "relacionar a frequéncia da citaçao de alguns temas, palavras ou ideias em um texto para medir o peso relativo atribuido a um determinado assunto pelo seu autor" (chizzotti, 2010, p.114).
Para Caregnato e Mutti (2006, p. 682), "a maioria dos autores refere-se à Análise de Conteúdo como sendo uma técnica de pesquisa que trabalha com a palavra, permitindo de forma prática e objetiva produzir inferéncias do conteúdo da comunicaçao de um texto replicáveis ao seu contexto social". Conforme esses autores, "na Análise de Conteúdo o texto é um meio de expressao do sujeito, onde o analista busca categorizar as unidades de texto (palavras ou frases) que se repetem, inferindo uma expressao que as representem" (carbonato; mutti, 2006, p. 682).
Em complemento aos autores supracitados, Mozzato e Grzybovski (2011, p. 734) afirmam que "a Análise de Conteúdo é um conjunto de técnicas de análise de comunicaçôes, que tem como objetivo ultrapassar as incertezas e enriquecer a leitura dos dados coletados". Os autores apontam, ainda, que, na busca pela cientificidade e pela objetividade, a Análise de Conteúdo recorreu, em um primeiro momento, a uma abordagem quantitativa por meio da qual a análise das mensagens se fazia pelo cálculo de frequéncias. Porém, logo, deu-se lugar à abordagem qualitativa, desse modo, possibilitando que a técnica fosse utilizada em ambas as abordagens, até mesmo, concomitantemente. Assim, por mais que tenha, na sua origem, a quantificaçao, súbito, compreendeu-se que esta técnica poderia ser aplicada, também, na análise qualitativa, pois sua característica é a inferência, isto é, variáveis inferidas a partir de variáveis de inferência no nivel da mensagem, quer essas estejam baseadas ou nao em indicadores quantitativos.
Portanto, a Análise de Conteúdo é uma técnica que pode ser utilizada tanto na pesquisa quantitativa como na investigaçao qualitativa, mas com aplicaçôes diferentes (bardin, 2011). Silva et al. (2005) e Caregnato e Mutti (2006) diferenciam essas duas abordagens ao referir que na quantitativa se traça uma frequência das características que se repetem no conteúdo do texto, enquanto que na qualitativa se considera a presença ou a ausência de uma dada característica num determinado fragmento de mensagem.
Embora seja considerada uma técnica híbrida por relacionar o formalismo estatístico e a análise qualitativa de materials, a Análise de Conteúdo oscila entre os dois polos, ora valorizando o aspecto quantitativo, ora o qualitativo, dependendo da ideología e dos interesses do pesquisador. Contudo, apesar da introduçao da inferência, a empatia pelos números nao desapareceu (fonseca júnior, 2009).
Com destaque para a natureza quantitativa da Análise de Conteúdo, Chizzotti (2010, p. 114) afirma que se trata de "um tipo de análise da comunicaçao que pretende garantir a imparcialidade objetiva, socorrendo-se da quantificaçao das unidades do texto claramente definidas, para gerar resultados quantificáveis ou estabelecer a frequência estatística das unidades de significado". O autor destace que se parte do pressuposto que um texto contém sentidos e significados que podem ser aprendidos por um leitor que interpreta a mensagem contida nele por meio de técnicas sistemáticas apropriadas. A mensagem pode ser aprendida decompondo-se o conteúdo do texto em fragmentos mais simples, tais como palavras, termos ou frases significativas de uma mensagem.
Por mais que muitos autores abordem a Análise de Conteúdo utilizando conceitos por vezes diferenciados, a definiçao que norteia este ensaio teórico é a de Bardin (2011, p. 48), que estabelece a Análise de Conteúdo como:
Um conjunto de técnicas das comunicaçôes, visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descriçao do conteúdo das mensagens indicadores (quantitatives ou nao) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condiçôes de recepçao/produçao (variáveis inferidas) dessas mensagens.
A autora ainda explica que:
Pertencem ao dominio da Análise de Conteúdo todas as iniciativas que, a partir de um conjunto de técnicas parciais mas complementares, consistam na explicitaçao e sistematizaçao do conteúdo das mensagens e da expressao deste conteúdo, com o contributo de índices passíveis ou nao de quantificaçao, a partir de um conjunto de técnicas, que, embora parciais, sao complementares (bardin, 2011, p. 48).
Durante algum tempo, a Análise de Conteúdo foi considerada quase sinónimo de análise de mensagens escritas e impressas, ao ponto de até as mensagens orais serem analisadas sob a forma de transcriçôes. Atualmente, apenas a análise de materials impressos se encontra normalmente desenvolvida; em segundo plano, ficam os estudos de mensagens sonoras e audiovisuais; em último plano, encontram-se as mensagens dos outros canais sensoriais, muito pouco estudados (fonseca júnior, 2009). Nesse sentido, Flick (2009, p. 291) aponta que "a Análise de Conteúdo é um dos procedimentos clássicos para analisar o material textual, nao importando qual a origem desse material".
Assim, a Análise de Conteúdo trabalha tradicionalmente com materiais textuais escritos, sejam eles produzidos em pesquisa, a partir, por exemplo, das transcriçôes de entrevista e dos protocolos de observaçao; ou já existentes, produzidos para outros fins, como textos de jornais (garegnatg; mutti, 2006).
Krippendorff (1990) cita très características fundamentais da Análise de Conteúdo: orientaçao fundamentalmente empírica, exploratoria, vinculada a fenómenos reais e de finalidade preditiva; transcendência das noçôes normais de conteúdo, envolvendo as ideias de mensagem, canal, comunicaçao e sistema; metodologia propria, que permite ao investigador programar, comunicar e avaliar um projeto de pesquisa com independência de resultados.
Flick (2009) destaca que uma das características essenciais da Análise de Conteúdo é a utilizaçao de categorías, comumente, obtidas de modelos teóricos. As categorias sao levadas para o material empírico, e nao necessariamente desenvolvidas a partir desse, conquanto sejam reiteradamente avalladas em contraposiçao a esse material e, se necessário, modificadas. Segundo o autor, o objetivo principal na Análise de Conteúdo é reduzir o material empírico.
O procedimento descrito por Flick (2009) consiste na técnica de Análise de Conteúdo mais generalizada, transmitida e antiga, denominada de análise categorial, que considera a totalidade de um texto, passando-o pelo crivo de classificaçao e do recenseamento, segundo a frequência de presença ou de ausência de itens de sentido (caregnato; mutti, 2006; bardin, 2011).
Na verdade, a Análise de Conteúdo construiu um conjunto de procedimentos e técnicas para extrair o sentido de um texto por meio de unidades elementares: palavras-chave, léxicos, categorías e temas, desse modo, procurando identificar a frequência ou a constância dessas unidades para fazer inferências e extrair os significados contidos no texto a partir de indicadores objetivos (cHizzoTTi, 2010). Segundo Bardin (2011, p. 37), "nao se trata de um instrumento, mas de um leque de apetrechos; ou, com mais rigor, será um único instrumento, mas marcado por uma grande disparidade de formas e adaptável a um campo de aplicaçao muito vasto: as comunicaçôes".
No Quadro 1 sao apresentadas e descritas as principais técnicas utilizadas na Análise de Conteúdo, segundo Fonseca Júnior (2009) e Bardin (2011):
Quanto à Análise do Discurso, elencada como uma das técnicas, Fonseca Júnior (2009) observa que há uma estreita ligaçao entre ela e a Análise de Conteúdo. Bardin (2011) enquadra a Análise do Discurso como pertencente ao campo da Análise de Conteúdo, salientando que há limitaçôes inerentes àquela. Com a finalidade de identificar aspectos que diferenciem estas duas técnicas de análise, no tópico subsequente, serao abordados os conceitos teórico-metodológicos sobre a Análise do Discurso enquanto modelo de interpretaçao de textos.
ANÁLISE DO DISCURSO
O surgimento da Análise do Discurso se deu no fim dos anos de 1960, em decorrência de insuficiências de uma análise de texto que se vinha praticando e que se pautava mormente por uma visao "conteudista", característica central das práticas dos estudos em Análise de Conteúdo, discutido no tópico anterior. A Análise do Discurso propöe o entendimento de um plano discursivo que articula linguagem e sociedade, estas intercaladas pelo contexto ideológico. Seu objetivo nao é instituir uma "nova linguística", mas consolidar uma alternativa de análise, mesmo que marginal, à perspectiva tradicional (rocha; deusdará, 2005).
Sob esse ponto de vista, Fagundes e Nogueira (2008) concordam com os autores supracitados ao afirmar que a Análise do Discurso decorre de uma nova percepçao da funçao da linguagem, que nao se limita a ser um suporte do pensamento ou um instrumento de comunicaçao, mas apreendida como interaçao e uma construçao social, ampliando-se, portanto, o enfoque da linguística. Nessa perspectiva, evidencia-se que uma linguística que se limite ao estudo interno da língua nao poderá dar conta do seu objeto, é necessário que ela traga para o interior do seu sistema um enfoque que articule o linguístico e o social (brandäo, 2004).
Segundo seus precursores, a Análise do Discurso pretende contribuir com as hermenéuticas contemporáneas, que, ao analisarem os discursos, apontam que estes contém um sentido oculto que deve ser captado e o qual, sem uma técnica adequada, permanece obscuro e inatingível (maingueneau, 1997; FAGUNDES; NOGUEIRA, 2008).
Portanto, a Análise do Discurso trabalha com o sentido e nao com o conteúdo do texto, um sentido que nao é traduzido, mas produzido. A Análise do Discurso tem a pretensao de interrogar os sentidos estabelecidos em diversas formas de produçao, verbais ou nao verbais, bastando que sua materialidade produza sentidos para interpretaçao (caregnato; mutti, 2006). Pressupöe-se, assim, que o discurso nao se restringe a uma estrutura ordenada de palavras, nem a uma descriçao ou a um meio de comunicaçao, tampouco se reduz a mera expressao verbal do mundo (chizzotti, 2010).
Mozzato e Grzybovski (2011, p. 737-738) colaboram com os autores supracitados ao aduzirem que:
A Análise do Discurso consiste numa técnica de análise que explora as relaçôes entre discurso e realidade, verificando como os textos sao feitos, carregando significados por meio dos processos sociais. Os textos podem ser considerados tanto uma unidade discursiva como manifestaçao material do próprio discurso.
Aborda-se a Análise do Discurso ora como uma disciplina interdisciplinar, ora como uma perspectiva teórico-metodológica ou, ainda, como uma técnica para análise de discursos (fagundes; nogueira, 2008). Segundo Caregnato e Mutti (2006), a Análise do Discurso nao é uma metodología, é uma disciplina de interpretaçao estabelecida pela intersecçao de epistemologias distintas, pertencentes a áreas da linguística, do materialismo histórico e da psicanálise. Da linguística, absorveu a noçao de fala para discurso; do materialismo histórico, emergiu a teoria da ideologia; e, da psicanálise, veio a noçao de inconsciente.
A Análise do Discurso envolve um amplo e heterogéneo conjunto de teorias e práticas que corresponde a objetivos e finalidades diversos e nutre uma diversidade de orientaçôes de pesquisa e disciplinas (chizzotti, 2010; bardin, 2011). Esta técnica de análise de dados tem como objetivo analisar o uso da linguagem em discursos contextualizados de pessoas que interagem, como também os processos pelos quais dao forma linguística e produzem sentido nas suas interaçôes sociais (chizzotti, 2010).
Não existe apenas uma linha de Análise do Discurso, existem muitos estilos diferentes, com enfoques variados, a partir de diversas tradiçôes teóricas, porém todas reivindicando o mesmo nome. O que esses diferentes estilos parecem ter em comum, ao tomar o discurso como objeto, é que compartilham de uma rejeiçao da noçao de que a linguagem é simplesmente um meio neutro de refletir, ou descrever o mundo, e uma convicçao da importância central do discurso na construçao da vida social (caregnato; mutti, 2006).
Para Flick (2009), a Análise do Discurso foi desenvolvida a partir de diferentes panos de fundo, sendo um deles a Análise de Conversaçao, técnica que será abordada no tópico subsequente deste estudo, e outro seria o Construcionismo Social.
Nesse sentido, no Quadro 2, sao apresentadas e descritas as principáis perspectivas da Análise do Discurso, segundo Chizzotti (2010):
Manhaes (2009) trabalha com duas abordagens em Análise do Discurso: a Análise do Discurso Francesa e a Análise do Discurso Inglesa ou Anglo-Saxônica. Segundo o autor, a primeira caracteriza-se pela ênfase no "assujeitamento" do emissor, que se expressa mediante a incorporaçao de discursos sociais já instituidos: religioso, científico, filosófico, mitológico, poético, jornalístico, publicitário, corporativo, etc. A segunda se caracteriza pelo papel ativo do sujeito, aquele que utiliza pragmaticamente as palavras para fazer coisas, embora nao descarte o fato de o sujeito estar obrigado a obedecer aos imperativos linguísticos, o que implica em um relativo assujeitamento.
O Quadro 3 resume as diferenças entre essas abordagens, segundo Maingueneau (1997):
Bardin (2011, p. 276) explica que:
A corrente anglo-saxônica designa por discurso qualquer forma de interaçao formal ou informal, qualquer linguagem no seu contexto social e cognitivo, e inspira-se na psicología, na antropologia, na pragmática e na etnometodologia, a qual observa o modo como a linguagem é utilizada em situaçôes de vida corrente.
Enquanto que, na corrente francesa, a Análise do Discurso advém do estruturalismo e da linguística e está dividida entre a descriçao linguística e a dificuldade em responder às exigências interpretativas das ciências humanas.
ANÁLISE DE CONVERSAÇÀO
A Análise de Conversaçao, ou, como vem sendo chamada, os estudos da fala-em-interaçao, surgiu, na década de 1960, na linha da Etnometodologia e da Antropología Cognitiva, e preocupou-se, até meados dos anos de 1970, sobretudo com a descriçao das estruturas da conversaçao e seus mecanismos organizadores (marcuschi, 2003; binet, 2010). A Etnometodologia trata da constituiçao da realidade no mundo do dia a dia e investiga a forma das pessoas se apropriarem do conhecimento social e das açôes (etno); diz respeito, ainda, à forma metódica de como os membros de uma sociedade aplicam seu saber sociocultural (metodologia) (marcuschi, 2003).
Assim, este modelo de análise partiu, inicialmente, do principio básico de que todos os aspectos da açao e da interaçao social poderiam ser examinados e descritos em termos de organizaçao estrutural convencionalizada ou institucionalizada, explicando a sua predominância nos estudos organizacionais de conversaçao (marcuschi, 2003).
Sobre o seu contexto atual, o autor supracitado afirma que a Análise de Conversaçao se preocupa com a especificaçao dos conhecimentos linguísticos, paralinguísticos e socioculturais que devem ser partilhados para que a interaçao seja bem-sucedida; a análise de estruturas foi ultrapassada e atingiu-se os processos cooperativos presentes na atividade conversacional, o problema passou da organizaçao para a interpretaçao. Para o autor, a Análise de Conversaçao procede pela induçao e parte de dados empíricos em situaçôes reais, o que lhe dá uma vocaçao naturalística com poucas análises quantitativas e prevalência das descriçôes e interpretaçôes qualitativas.
Nesse sentido, Silva et al. (2009, p. 4) inferem que:
Um pressuposto importante para se realizar pesquisas numa perspectiva de Análise de Conversaçao é analisar interaçôes naturalísticas. A palavranaturalística indica que os dados nao sao experimental ou gerados a partir de um roteiro prévio, mas que foram coletados no ambiente em que eles aconteceram.
Logo, os dados nao provêm de coletas realizadas por meio de entrevistas preconcebidas, questionários ou experimentos com intervençôes, a Análise de Conversaçao gira em torno da investigaçao de fatos e situaçôes que ocorrem no dia a dia e da maneira como acontecem, mesmo que nao haja pesquisa sendo realizada (passuello; ostermann, 2007; flick, 2009; silva et al., 2009).
Borges e Gonçalo (2010, p. 1), em consonância com os autores supracitados, definem a Análise de Conversaçao como "uma análise sistemática da conversa produzida em situaçôes diárias da interaçao humana, denominada de fala-em-interaçao (talk-in-interaction), que ocorrem naturalmente, sem a interferência do pesquisador". Desse interesse pelas situaçôes e açôes sociais que ocorrem no dia a dia é que emana o seu enquadramento na linha da Etnometodologia.
Marcuschi (2003) afirma que a Análise de Conversaçao é uma tentativa de responder a questôes do tipo: como é que as pessoas se entendem ao conversar?; como sabem que estao se entendendo?; como sabem que estao agindo coordenada e cooperativamente?; como usam seus conhecimentos linguísticos e outros para criar condiçôes adequadas à compreensao mútua?; como criam, desenvolvem e resolvem conflitos interacionais?
Nessa perspectiva, estuda-se a fala das pessoas propriamente dita, e nao seus pensamentos, emoçôes, atitudes, crenças ou experiências de vida, que sao assumidos como subjacentes à fala (e que podem ser expresses por meio dela). Trata da fala como uma forma de açao social, ou seja, como uma forma de fazer coisas no mundo (discordar, reclamar, etc.). Assim, investiga-se como as pessoas envolvidas em uma interaçao social compreendem o que sua fala está fazendo (passuello; ostermann, 2007).
As Análises de Conversaçao sao eminentemente descritivas da fala dos participantes, estes, por sua vez, constroem uma realidade social nas comunicaçôes interpessoais, por meio de interaçôes sociais, em que se mostram capazes de falar, silenciar, interromper, ocultar, produzir uma imagem de si e provocar a exposiçao do outro (cmzzorn, 2010).
Portanto, o foco da Análise de Conversaçao nao é o significado subjetivo para os participantes, mas a forma como essa interaçao é organizada. O tópico de pesquisa é o estudo da vida cotidiana, por isso é crucial o papel do contexto em que as interaçôes ocorrem. Cada evento de fala em interaçao apresenta esforços de produçao dos membros ali mesmo, ou seja, das contribuiçôes conversacionais dos membros (borges; gonçalo, 2010).
Em virtude da vocaçao naturalística da Análise de Conversaçao, a principal maneira de se obter os chamados dados naturalísticos é gravando as conversas dos participantes em áudio e/ou em vídeo e, consequentemente, um procedimento imprescindível em pesquisas que se utilizam da Análise de Conversaçâo é a transcriçao das conversas gravadas. A transcriçao dos dados nao é um mero procedimento que transforma texto oral em documento escrito, visto que ela obedece a uma série de convençôes que sinalizam os diferentes aspectos que permearam uma determinada conversa, tais como pausa, sobreposiçao de falas, entonaçao ascendente ou descendente, falas coladas (quando um participante começa a falar imediatamente após outro ter cessado sua fala), palavras proferidas de forma incompleta, aspiraçao ou expiraçao de ar durante a fala, entre outros que se mostrarem relevantes (silva et al., 2009).
Assim, os analistas da conversaçao privilegiam como base empírica dos estudos da linguagem as gravaçôes e as transcriçôes integrais de trocas conversacionais ocorridas em quadros naturais, isto é, nao provocadas ou modificadas pelos investigadores. O valor semántico de uma forma linguística (um "sim", por exemplo) é inseparável da sequência conversacional, só um registro completo da interaçao verbal, fiel à sua organizaçao sequencial, permite ser analisado adequadamente (binet, 2010).
Marcuschi (2003) explica que a Análise de Conversaçâo se dá com base em material empírico reproduzindo conversaçôes reais e considera detalhes nao apenas verbais, mas entonacionais, paralinguísticos e outros, logo, algumas informaçôes adicionais devem aparecer na transcriçao, uma vez constatada sua releváncia.
Passuello e Ostermann (2007) justificam a importáncia das interaçôes analisadas, a partir dessa perspectiva, serem, necessariamente, gravadas em áudio: diferentemente de pesquisas que se centram no conteúdo das falas ou apenas no que foi dito, estudos de Análise de Conversaçao atentam primordialmente para o como as coisas foram ditas. Em análises linguísticas e interacionais, nao se pode confiar apenas em anotaçôes e memória para lembrança de detalhes ocorridos nos turnos de fala (pausas, falas simultáneas, hesitaçôes e outros fenómenos interacionais). É somente com dados gravados em áudio e/ou em vídeo que analistas da conversa podem estudar os detalhes das reais interaçôes.
Para Flick (2009), inicialmente, a Análise de Conversaçao se limitou à conversaçao em sentido estrito, ou seja, conversas telefónicas, conversas em familia, nas quais nao existe nenhuma distribuiçao de papéis específicos. No entanto, atualmente, ela se ocupa cada vez mais com essa distribuiçao específica de papéis e de assimetrias, como a conversa de aconselhamento, interaçôes judiciais, ou seja, conversaçôes que ocorram em contextos institucionais específicos.
As situaçôes em que ocorrem as assimetrias ou os diálogos assimétricos se caracterizam, segundo Marcuschi (2003), por conversaçôes em que um dos seus participantes tem o direito de iniciar, orientar, dirigir e concluir uma interaçao e exercer pressao sobre o outro participante, como, por exemplo, nas entrevistas, nos inquéritos, nas interaçôes em sala de aula, etc. Enquanto que, nas situaçôes de simetría ou diálogos simétricos, os vários participantes têm supostamente o mesmo direito à autoescolha da palavra e do tema a tratar-se. O autor indica que, na segunda situaçao, tem-se propriamente uma conversaçao em sentido estrito.
Um dos aspectos fundamentais para compreender os estudos de Análise de Conversaçao é o da sequencialidade, isto é, quando uma pessoa fala, ela está levando em consideraçao o que foi dito anteriormente por outra pessoa. Intrínsecas a este aspecto, estao as ideias de que os participantes estao sempre evidenciando uns para os outros a inteligibilidade da interaçao; o que se diz a cada turno tem uma configuraçao sequencial e nao sao elementos isolados que têm o mesmo valor e realizam as mesmas açôes onde quer que sejam produzidos; os participantes alternam-se nos papéis de falante e ouvinte (silva et al., 2009).
Flick (2009) destaca alguns fatores que devem ser observados na Análise de Conversaçao: pressupôe que a interaçao prossiga de uma forma ordenada e que nada nela deva ser considerado aleatorio; o contexto da interaçao nao apenas a influencia, mas é nela produzido e reproduzido; a decisao quanto ao que é relevante na interaçao social e para a interpretaçao apenas pode ser tomada por meio da própria interpretaçao.
Por fim, Marcuschi (2003) define cinco características básicas constitutivas da Análise de Conversaçao: interaçao entre pelo menos dois falantes; ocorrência de pelo menos uma troca de falantes; presença de uma sequência de açôes coordenadas; execuçao em uma identidade temporal; envolvimento em uma interaçao centrada.
Quanto à natureza indutiva e descritiva da Análise de Conversaçao, Binet (2010) concluí que esta técnica e o seu sistema articulado de conceitos sao dotados de um poder descritivo e analítico que habilita o investigador a estudar minuciosa e intensivamente um dado evento interacional encarado na sua singularidade. O seu interesse em descriçôes densas de práticas e comportamentos constitui chaves para uma compreensao de dentro (intracultural) das culturas humanas consideradas na sua diversidade. Para o autor, em vez de projetar de cima para baixo conceitos rígidos, os analistas da conversaçao chamam atençao para a riqueza das reformulaçôes conceituais e das descobertas proporcionadas por uma abordagem verdadeiramente indutiva atenta às singularidades de cada interaçao verbal transcrita.
Após essa breve discussao sobre os conceitos teórico-metodológicos de Análise de Conteúdo, Análise do Discurso e Análise de Conversaçao, na seçao subsequente serao discutidas algumas diferenças perceptíveis entre esses modelos de interpretaçao de textos à luz dos achados na literatura especializada.
DIFERENÇAS ENTRE OS MODELOS DE INTERPRETAÇÀO DE TEXTOS
Inicialmente, é importante destacar que, segundo Flick (2009), os très modelos de interpretaçao de textos discutidos neste ensaio teórico podem ser classificados em duas categorias de estratégias de tratamento dos textos. A Análise de Conteúdo faz parte da categoria de estratégia que adota o procedimento de codificar um determinado material empírico, com o objetivo de categorizar ou desenvolver uma teoria. Enquanto que a Análise do Discurso e a Análise de Conversaçao seguem a estratégia de analisar sequencialmente um determinado texto, buscando a reconstruçao da sua estrutura. Assim, verifica-se uma primeira diferença entre esses modelos, a Análise de Conteúdo busca reduzir o material empírico, isto é, o texto a ser interpretado. Já a utilizaçao da Análise do Discurso e da Análise de Conversaçao acarretará um aumento do material textual.
Uma segunda diferença perceptível está no tipo de abordagem das técnicas. A interpretaçao da Análise de Conteúdo poderá ser tanto quantitativa quanto qualitativa (silva et al., 2005; carbonato; mutti, 2006; fonsecajúnior, 2009; bardin, 2011; mozzato, grzybgvski, 2011). Na Análise do Discurso, a interpretaçao é apenas qualitativa (carbonato; mutti, 2006). E, na Análise de Conversaçao, há a prevalência das interpretaçôes qualitativas, com poucas análises quantitativas (marcuschi, 2003).
Com relaçao à postura teórica, a Análise de Conteúdo possui um corte positivista, aposta no rigor, na sistematizaçao e na objetividade da técnica (rocha; deusdará, 2005; fonseca júnior, 2009). A Análise de Conversaçao segue a linha da Etnometodologia e da Antropología Cognitiva (marcuschi, 2003; binet, 2010). Já a Análise do Discurso envolve um amplo e heterogéneo conjunto de teorías (carbonato; mutti, 2006; chizzotti, 2010; bardin, 2011), contudo, Flick (2009) aponta como um dos panos de fundo desta técnica o Construcionismo Social.
Na sequência, as diferenças teórico-metodológicas serao discutidas por meio de uma confrontaçâo aos pares: Análise de Conteúdo versus Análise do Discurso; Análise de Conteúdo versus Análise de Conversaçao; Análise do Discurso versus Análise de Conversaçao.
Análise de Conteúdo versus Análise do Discurso
ao compararem-se os achados na literatura que abordam estes dois modelos, verifica-se que a análise de conteúdo se ocupa basicamente com a análise de mensagens (simäo; gobbi; simäo, 2005; fonseca júnior, 2009; chizzotti, 2010; bardin, 2011; mozzato, grzybgvski, 2011), o mesmo ocorre com a análise do discurso. uma importante diferença entre esses modelos é que apenas a análise de conteúdo cumpre com o requisito de sistematizaçao (fonseca júnior, 2009).
Contudo, a principal diferença entre a Análise de Conteúdo e a Análise do Discurso é o modo de acesso ao objeto (carbonato; mutti, 2006). A Análise do Discurso trabalha com o sentido (maingueneau, 1997; caregnato; mutti, 2006; FAGUNDEs; nogueira, 2gg8); já a Análise de Conteúdo trabalha com o conteúdo, assim, estabelecendo categorías para sua interpretaçao (rocha; deusdará, 2005; caregnato; mutti, 2gg6; flick, 2009; chizzotti, 2010; bardin, 2011).
A Análise do Discurso busca os efeitos de sentido relacionados ao discurso e preocupa-se em compreender os sentidos que o sujeito manifesta por meio dele. Enquanto que a Análise de Conteúdo se fixa, principalmente, no conteúdo do texto, sem fazer relaçôes além deste, e espera compreender o pensamento do sujeito mediante o conteúdo expresso no texto, numa concepçao transparente de linguagem (caregnato; mutti, 2006). Contudo, Bardin (2011) destaca que a Análise de Conteúdo também deve levar em consideraçao o que nao está explícitamente presente no texto.
A Análise de Conteúdo centra-se na crença de que a neutralidade da técnica, ou seja, uma relaçao de distanciamento entre o pesquisador e seu objeto de análise, seria a garantia de obtençao de resultados mais precisos (rocha; deusdará, 2005). De modo oposto, a Análise do Discurso rejeita a noçao de que a linguagem é simplesmente um meio neutro de refletir (caregnato; mutti, 2006).
ANÁLISE DE CONTEÚDO VERSUS ANÁLISE DE CONVERSAÇÂO
O ponto de diferenciaçao entre a Análise de Conteúdo e a Análise de Conversaçao está na questao das interaçôes naturalísticas. A Análise de Conteúdo trabalha tradicionalmente com materiais textuais escritos, sejam eles produzidos em pesquisa, a partir, por exemplo, das transcriçôes de entrevista e dos protocolos de observaçao; ou já existentes, produzidos para outros fins (caregnato; mutti, 2006). E a Análise de Conversaçao, em virtude de sua vocaçao naturalística, gira em torno da investigaçao de fatos e situaçôes que ocorrem no dia a dia e da maneira como acontecem, ou seja, nao provocados ou modificados pelos pesquisadores, os dados nao provêm de coletas realizadas por meio de entrevistas, questionários ou experimentos com intervençôes (marcuschi, 2003; passuello; ostermann, 2007; flick, 2009; silva et al., 2009; binet, 2010; borges; gonçalo, 2010).
ANÁLISE DO DISCURSO VERSUS ANÁLISE DE CONVERSAÇÂO
Embora a Análise do Discurso tenha se desenvolvido tendo como um dos panos de fundo a Análise de Conversaçao, o seu foco empírico concentra-se mais no conteúdo da fala, em seu assunto e sua organizaçao mais social do que propriamente linguística (flick, 2009). Isto é, combina procedimentos analíticos de linguagem com análises de processos e construçôes, sem se restringir aos aspectos formais dos processos linguísticos. Já a Análise de Conversaçao estuda a fala das pessoas propriamente dita, atenta-se, primordialmente, para o como as coisas sao faladas (passuello; ostermann, 2007; cmzzorn, 2010).
A Análise de Conversaçao busca investigar fatos e situaçôes da vida cotidiana (margusghi, 2003; passuello; ostermann, 2007; flick, 2009; silva et al., 2009; binet, 2010; borges; gonçalo, 2010). Enquanto que os procedimentos da Análise do Discurso referem-se nao apenas às conversas cotidianas, mas, também, a outros tipos de dados gerados de, por exemplo, roteiros de entrevistas preconcebidos (flick, 2009).
CONSIDERAÇÔES FINAIS
O presente estudo se propôs a discutir teoricamente sobre três dos modelos de interpretaçao de textos mais utilizados em pesquisas de abordagem qualitativa, bem como apresentar, preliminarmente, diferenças perceptíveis entre eles.
Verificou-se que os três modelos se diferenciam, principalmente, quanto à estratégia adotada no tratamento dos textos; ao tipo de abordagem com a qual está relacionado, se qualitativo e/ou quantitativo; e à postura teórica na qual se enquadra. Além disso, foi possível realizar uma comparaçao aos pares: Análise de Conteúdo versus Análise do Discurso; Análise de Conteúdo versus Análise de Conversaçao; Análise do Discurso versus Análise de Conversaçao. Diagnosticou-se que a "vocaçao naturalística" da Análise de Conversaçao diverge tanto da Análise de Conteúdo como da Análise do Discurso.
Uma limitaçao deste estudo reside no fato de que há uma dificuldade em encontrar, na literatura especializada (artigos, livros, etc.), trabalhos que se dediquem à discussao dos procedimentos necessários para se realizar uma Análise do Discurso. Com relaçao a esse fato, Flick (2009) leciona que, nos trabalhos publicados, predominam as alegaçôes teóricas e os resultados empíricos. Somado a isso, a Análise do Discurso envolve um amplo e heterogéneo conjunto de teorías e práticas, assim, dificultando uma discussao mais clara e objetiva, o que poderia ser minimizado com ensaios teóricos que tenham como objetivo discutir as várias perspectivas relacionadas com esse modelo de interpretaçao de textos, quais sejam: Estruturalismo, Análise Foucaultiana do Discurso, Análise Semiótica do Discurso e Análise Crítica do Discurso.
É evidente, também, que boa parte dos estudos que diz empregar as técnicas de Análise de Conteúdo e Análise do Discurso nao esclarece sua operacionalizaçao, o que pode vir a prejudicar sua credibilidade, haja vista que o rigor metodológico é o que confere validade a um estudo.
A escolha de qual das técnicas de análise de dados utilizar em uma pesquisa dependerá do objeto em estudo, do campo de pesquisa e do propósito do pesquisador. A coexistência dos modelos em um estudo é possível, desde que haja coerência e adequaçao ao tema a ser estudado.
Espera-se que este estudo possa dirimir, ao menos preliminarmente, dificuldades quanto à diferenciaçâo dos très modelos. Ressalta-se a importância da inclusao da técnica de análise das narrativas nesta discussao, que, por vezes, também, é confundida com as técnicas aqui abordadas. Recomenda-se um maior aprofundamento sobre este tema, visto que ainda sao poucos os trabalhos que têm como objetivo tal diferenciaçâo conceitual e teórico-metodológica, muito necessária para pesquisas de abordagem qualitativa, bem como para os estudos organizational e para pesquisadores do campo da Administraçâo.
REFERENCIAS
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ANDERSON TIAGO PEIXOTO GONÇALVES adm.andersontiago@gmail.com
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
DADOS DOS AUTORES
ANDERSON TIAGO PEIXOTO GONÇALVES* adm.andersontiago@gmail.com
Mestre em Engenharia de Produção pela UFPB
Instituição de vinculação: Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
João Pessoa/PB - Brasil
Áreas de interesse em pesquisa: Logística Empresarial, Administração da Produçâo e Estratégia.
* Rua Fernando Cunha Lima, 1845 Cristo João Pessoa/PB 58071-480
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Copyright Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração- ANGRAD May-Aug 2016
Abstract
This theoretical essay aims to reflect on three models of text interpretation used in qualitative research, which is often confused in its concepts and methodologies (Content Analysis, Discourse Analysis, and Conversation Analysis). After the presentation of the concepts, the essay proposes a preliminary discussion on conceptual and theoretical methodological differences perceived between them. A review of the literature was performed to support the conceptual and theoretical methodological discussion. It could be verified that the models have differences related to the type of strategy used in the treatment of texts, the type of approach, and the appropriate theoretical position.
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